Com versões em preto e branco e colorida, a série Spider-Noir reacende discussões sobre um dos subgêneros mais influentes da história do cinema.

A estreia de Spider-Noir trouxe aos fãs uma escolha difícil, assistir à produção em sua versão colorida ou em preto e branco. Como já era esperado, a decisão gerou debates nas redes sociais sobre qual seria a forma “certa” de acompanhar a série. A origem histórica do termo noir pode ajudar a responder essa pergunta.
Embora o termo “Noir” seja conhecido pelo cinema norte-americano, sua origem vem da França. Sua primeira menção foi feita pelo crítico francês Nino Frank na revista "L'Écran Français", na década de 1940. A expressão “films noirs” foi utilizada para descrever a grande leva de produções investigativas que exploravam a** fragilidade humana** por meio de protagonistas moralmente ambíguos, diferente da figura tradicional do herói.
Outros elementos técnicos também ajudaram a identificar longas que se encaixam nesse subgênero, como o uso de uma fotografia carregada, atmosfera melancólica, sombras marcantes e iluminação dramática, muitas vezes teatral. Além disso, era comum o uso do plano holandês, um enquadramento que inclinava a câmera para transmitir desconforto ao público, sugerindo desequilíbrio tanto nos personagens quanto no ambiente ao redor.

(Reprodução: Cidadão Kane - dir. Orson Welles)
Como toda expressão artística reflete o período em que foi criada, o noir não foi diferente. O pessimismo e a sensação de opressão presentes nessas obras dialogavam diretamente com o contexto do pós-guerra. Apesar da prosperidade econômica vivida pelos Estados Unidos naquele período, os traumas e medos deixados pela guerra continuavam presentes na sociedade.
Entre os filmes que se tornaram referências do noir clássico estão:
Cidadão Kane (1941)
Relíquia Macabra (1941)
O Falcão Maltês (1941)
Laura (1944)
Assassinato, Meu Amor (1944)
Pacto de Sangue (1944)
Apesar de seu enorme impacto cultural, o noir clássico teve uma trajetória relativamente curta. O termo criado na França nos anos 1940 só passou a ser adotado amplamente nos Estados Unidos na década de 1950, período que muitos pesquisadores consideram justamente o fim da era de ouro desse subgênero.
O fim do noir clássico não significou seu desaparecimento. A partir dos anos 1970, uma nova geração de cineastas passou a incorporar seus temas e atmosferas em produções contemporâneas, dando origem ao chamado neo-noir.
Suas características foram revisitadas, ressignificadas e modernizadas, abrindo espaço para histórias que refletiam uma sociedade norte-americana marcada por transformações culturais e pelo desgaste provocado pela Guerra do Vietnã.
Um dos exemplos mais marcantes é Taxi Driver (1976), dirigido por Martin Scorsese. No filme, o veterano Travis Bickle (Robert De Niro) enfrenta a solidão e a instabilidade emocional enquanto trabalha como motorista de táxi durante as madrugadas de uma Nova York decadente. O longa é frequentemente citado como uma das obras que redefiniram o noir.

(Reprodução: Taxi Driver - dir. Martin Scorsese)
Diferentemente de seu antecessor, o neo-noir não se limitou a uma única década. Ao longo dos anos, o subgênero continuou influenciando produções aclamadas pela crítica e pelo público, como:
Blade Runner (1982)
O Profissional (1994)
Se7en (1995)
Pulp Fiction (1994)
Oldboy (2003)
Onde os Fracos Não Têm Vez (2007)
Drive (2011)
Cidade dos Sonhos (2001)
Sin City (2005)
Dia de Treinamento (2001)
The Batman (2022)
Com esse contexto, podemos concluir que assistir a Spider-Noir tanto em preto e branco quanto em cores são escolhas válidas. A edição monocromática remete diretamente aos clássicos e à chamada era de ouro do noir, enquanto a versão colorida dialoga com a estética neo-noir presente em diversas produções das últimas décadas.
Afinal, o que faz a série se encaixar nesse subgênero não é sua paleta de cores, mas suas escolhas narrativas, a construção de seus personagens, a atmosfera urbana e a forma como retrata seus conflitos. Mais de 80 anos após seu surgimento, o noir continua sendo definido por uma atmosfera tão complexa quanto seus sombrios personagens.


Jornalista crítico de “filminho” e amante de terror (até dos ruins). Ansioso demais para jogos online, singleplayer é vida.
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