Atriz entrega uma Kara Zor-El cheia de camadas e sensibilidade, mas não consegue livrar o longa de uma história esquecível.

O Superman de James Gunn foi um novo marco para o DC Studios, não só por ser o primeiro longa desse novo universo, mas por trazer para a casa a verdadeira essência do personagem. Muito disso se deve ao acerto na escalação de David Corenswet, visto que assumir um manto tão icônico e simbólico não é para qualquer ator. E agora, em Supergirl, o resultado se repete, com Milly Alcock provando estar à altura do símbolo que carrega no peito.
Mas, apesar da performance que transborda nas telas do cinema, o desenrolar da trama não carrega tanto brilho quanto sua protagonista. O longa foi fortemente inspirado no quadrinho Supergirl: A Mulher do Amanhã, escrito por Tom King, desenhado por Bilquis Evely e colorido por Matheus Lopes (os dois últimos, brasileiros). Sendo assim, o que guia ambas as jornada são os caminhos da vingança e do autoconhecimento.

Como vimos em Superman (2025), Kara Zor-El (nome kryptoniano da Supergirl) está em uma jornada de bebedeira pelos planetas da galáxia, na esperança de afogar as dores de seu trauma ao lado de seu único companheiro, o cachorro Krypto. Até que ela encontra a jovem Ruthye Marye (Eve Ridley), que presenciou a morte de sua família pelas mãos do sanguinário e genérico Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts). Após a recusa inicial de Kara, o fatídico vilão rouba sua nave e envenena seu cachorro, Krypto, motivando, assim, uma dupla jornada de vingança e pertencimento.
Encontrar o alvo, eliminá-lo, buscar a cura para o cachorro e fim de história. Uma premissa com um objetivo simples como esse não é tão fácil de executar, para dar volume à trama, o desenvolvimento pessoal precisa ser trabalhado, explorando traumas e a conexão entre as personagens. Caso contrário, o filme se torna apenas mais uma história esquecivel.
E é o que acontece aqui. Milly Alcock brilha em sua performance, carregando o filme em todos os momentos, do drama aos alívios cômicos, e mostrando que nasceu não apenas para ser a Supergirl, mas para ser Kara Zor-El. Seus momentos de sensibilidade impressionam, até mesmo em uma sequência extremamente longa falada inteiramente em kryptoniano, na qual acompanhamos a morte de seu planeta.

No entanto, a conexão entre as personagens carece de substância e acaba caindo no caricato. Ruthye está traumatizada, assim como sua companheira de viagem, mas não há tempo nem diálogos suficientes para que o público sinta a criação de um laço real entre elas. Já em seu material base, é explorado de sobra, com olhares de admiração e temor, além de falas de compaixão com o pesar de Kara, estabelecendo uma ligação pela dor que as une nessa jornada.
O cruel, patife, miserável e escória da galáxia, Krem dos Montes Amarelos, é sem graça. Uma crítica muito comum em relação aos quadrinhos é o visual genérico do personagem, e sua maldade sem propósito no filme acaba ressaltando ainda mais o seu aspecto descartável, soando como apenas mais um antagonista unidimensional a ser eliminado. O longa tenta corrigir ao menos o seu visual, o que, ainda assim, não convence e beira o cafona.
O maniqueísmo em produções de super-heróis já foi muito utilizado. Mas 2026, com tantas obras servindo de exemplo, esvaziar um vilão que poderia entregar mais do que simplesmente ser um símbolo do mal soa como um grande desperdício. Ele mata pessoas inocentes a sangue frio e dá risada, envenena cachorros e persegue crianças e sequestra mulheres. Matthias Schoenaerts, ator responsável por dar vida ao antagonista, se esforça para deixá-lo marcante, mas sua função narrativa engessada fala mais alto.

Craig Gillespie pode não ser um nome tão reconhecível pelo grande público, mas é inegável que suas produções, como “Eu, Tonya” e “Cruella”, têm o seu próprio charme. Por que, então, em Supergirl o diretor parece tão apagado? O mais próximo que temos de suas características autorais são os usos certeiros de músicas na trilha sonora.
Isso realmente soa como um desperdício, tendo em vista a personalidade das obras anteriores do diretor e do próprio quadrinho de A Mulher do Amanhã. Não que a fotografia seja ruim, ela tem seus momentos inspirados, mas passa muito longe do direcionamento colorido e deslumbrante concebido por Bilquis Evely e Matheus Lopes na HQ.
No final, Supergirl não é um longa de todo mal, apenas simples. É uma constatação que desacelera um pouco o ânimo dos fãs com esse novo início do DC Studios. Milly Alcock prova estar à altura da personagem, mas, infelizmente, voando muito mais alto que o próprio filme.
Supergirl estreia oficialmente no dia 25 de junho nos cinemas.

Jornalista crítico de “filminho” e amante de terror (até dos ruins). Ansioso demais para jogos online, singleplayer é vida.
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