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"Marty Supreme" e o delírio do sonho americano

Timothée Chalamet entrega um protagoista magnético em um filme sobre caos, ego e a obsessão do individualismo

"Marty Supreme" e o delírio do sonho americano

Filmes de esporte são a nova tendência dos cinemas, e o melhor de tudo é que ninguém liga pro esporte. Cortando os exageros, a nova leva de longas desse gênero vem focando em usar o espírito esportivo para revelar nosso íntimo, em Challengers (Luca Guadagnino), com um trisal novelesco; em The Smashing Machine (Benny Safdie), com a luta interna de suas inseguranças; ou agora em Marty Supreme (Josh Safdie), com o egoísmo e o caos do sonho americano.

Dirigido por Josh Safdie e protagonizado por Timothée Chalamet, o longa, situado em uma Nova York dos anos 1950, acompanha um jovem judeu que não apenas sonha, mas acredita com todas as suas forças que vai se tornar um ícone do pingue-pongue (tênis de mesa). Com esse objetivo claro de ascensão social, Marty aposta todas as suas fichas em seu talento.

Essa obstinação em se tornar um ícone do esporte carrega, no mínimo, um gosto amargo, muito por conta da atuação de Chalamet, que não apenas mostra o homem focado que Marty é, mas também seu caráter duvidoso, egomaníaco e manipulador. E não é exagero dizer que isso é incrível, justamente por nos fazer simpatizar com alguém que, mesmo quebrado, devora a atenção assim que aparece em cena.

Esse magnetismo proporcionado por sua atuação, somado ao terror e ao frisson da direção de Josh Safdie, resulta em um caos quase hipnótico. A narrativa é tão intensa e acelerada que praticamente nos faz esquecer que a história é sobre pingue-pongue. E essa é exatamente a proposta, com uma sequência de erros somados um após o outro, Marty se afunda em situações cada vez mais surreais e, quanto mais se debate para sair delas, mais é sufocado.

Mesmo que surgindo do desespero, o filme apresenta alguns alívios cômicos, não como humor escrachado, mas como um riso de surpresa após mais um problema inacreditável. Se a impressão é a de que o roteiro está forçando esses absurdos, é exatamente isso (e nada é tão incrível quanto o exagero).

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O elenco também conta com Tyler, the Creator, Odessa A’zion e Gwyneth Paltrow, que desempenham bem seus papéis, ainda que com um único objetivo narrativo: serem passados para trás por Marty. Pouco a pouco, e de maneiras diferentes, todos ao seu redor são usados e descartados, sempre sob a justificativa de que ele possui um propósito maior, o que, não ironicamente, dialoga com o individualista cerne estadunidense.

O egoísmo norte-americano

A missão americana de difundir sua cultura pelo mundo foi um sucesso, unificando-se culturalmente a diversos países. No entanto, recentemente, esse movimento parece estar mudando de dentro para fora, e Marty Supreme é autoconsciente disso.

Ao longo da narrativa, é reforçado a exaustão a origem do protagonista, como ele será o americano número um no esporte, como é melhor que os outros e como apenas isso importa. À primeira vista, pode soar apenas bobo ou expositivo, mas relacionar um judeu americano vivendo em condições precarizadas, com um sonho explicitamente inalcançável e disposto a pisar em todos ao seu redor para alcançá-lo, representa o ápice do individualismo tão propagado por esse país.

De certa forma, Marty Supreme se torna mais que um filme de esporte repleto de caos e ansiedade, se personificando em um retrato do ego americano com o senso de conquista alucinado de uma nação que acredita ter sido escolhida por algo maior.

Marty Supreme estreia oficialmente no dia 22 de janeiro nos cinemas brasileiros.

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Pierre Augusto

Estudante de Jornalismo e estagiário na Câmara Municipal de SP. Metido a crítico de “filminho” e amante de terror (até dos ruins). Ansioso demais para jogos online, singleplayer é vida.

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